
O despertador tocou, mas ele recusou-se a abrir os olhos. Parecia que havia acabado de deitar, já que seu cansaço era completo. Dormira somente quatro horas, após chegar em casa, já quase de manhã, vindo de uma confraternização de Natal. As poucas horas de sono turvaram-lhe a cabeça e ele não notou a diferença no som que saia do aparelho. Apanhou-o ainda de olhos fechados, tocando a tela no exato ponto em que sabia haver o botão de "soneca", mas o alarme continuou insistente. Brigou com o corpo ainda pesado, finalmente tendo forças para abrir os olhos. Não era o despertador que tocava e sim o alarme do calendário. A tela colorida indicava assertiva: "Amanhã - check-in Hotel Ankara - Salta/Argentina". Piscou, confuso. Olhou a tela novamente. Fez os cálculos, perguntando "que dia é hoje?" em voz alta para alguém que não estava lá. Tinha certeza de que era 24 de dezembro, véspera de Natal. Mas aquilo não fazia o menor sentido. Sairia de casa dia 25, dormiria a primeira noite em Uruguaiana, dia 26 chegaria em Roque Saenz Penha e só então, dia 27, pousaria em "Salta, La Linda". Por que o calendário dizia que a reserva estava confirmada para "amanhã"? "Estou viajando, só pode, é o cansaço", pensou. Cobriu-se, decidido a dormir outra vez. Mas só por descargo de consciência, resolveu verificar as reservas. Abriu o aplicativo, procurando "Salta - Argentina". O ar lhe faltou por um segundo. Arregalou os olhos, passando de uma reserva a outra. Um frio congelante lhe percorreu a espinha. Não entendeu o porquê, mas a reserva estava dois dias adiantada. Se quisesse chegar a tempo, deveria sair naquele instante. A adrenalina fez seu corpo queimar e ele saltou da cama decidido. O sono desapareceu por completo. Correu até o computador, acessou o site das reservas, procurando por locais e datas freneticamente. Minutos de terror ao perceber que as reservas antes do deserto estavam dois dias adiantadas e as reservas "depois" estavam um dia atrasadas. O cronograma estava mais furado que seu calção de dormir.
- Um, dois, três, quatro... - contou, respirando fundo. De repente, como se estivesse possuído, seus dedos fizeram o computador saltar deu uma tela à outra, corrigindo datas, alterando hotéis e cancelando reservas erradas. Checou uma vez. Checou novamente. Fez uma tabela em um pedaço de papel, certificando-se pela terceira vez.
Alívio.
"Essa foi por pouco", pensou.
Relaxou o corpo, abençoando a ideia de transferir as reservas para o calendário do telefone.
"É isso, sem folga que hoje o dia vai ser longo", falou em voz alta. Levantou-se e foi tomar banho. Um dia inteiro de trabalho ainda lhe aguardava antes do deserto...
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