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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A Viagem que quase "nunca foi"

O despertador tocou, mas ele recusou-se a abrir os olhos. Parecia que havia acabado de deitar, já que seu cansaço era completo. Dormira somente quatro horas, após chegar em casa, já quase de manhã, vindo de uma confraternização de Natal. As poucas horas de sono turvaram-lhe a cabeça e ele não notou a diferença no som que saia do aparelho. Apanhou-o ainda de olhos fechados, tocando a tela no exato ponto em que sabia haver o botão de "soneca", mas o alarme continuou insistente. Brigou com o corpo ainda pesado, finalmente tendo forças para abrir os olhos. Não era o despertador que tocava e sim o alarme do calendário. A tela colorida indicava assertiva: "Amanhã - check-in Hotel Ankara - Salta/Argentina". Piscou, confuso. Olhou a tela novamente. Fez os cálculos, perguntando "que dia é hoje?" em voz alta para alguém que não estava lá. Tinha certeza de que era 24 de dezembro, véspera de Natal. Mas aquilo não fazia o menor sentido. Sairia de casa dia 25, dormiria a primeira noite em Uruguaiana, dia 26 chegaria em Roque Saenz Penha e só então, dia 27, pousaria em "Salta, La Linda". Por que o calendário dizia que a reserva estava confirmada para "amanhã"? "Estou viajando, só pode, é o cansaço", pensou. Cobriu-se, decidido a dormir outra vez. Mas só por descargo de consciência, resolveu verificar as reservas. Abriu o aplicativo, procurando "Salta - Argentina". O ar lhe faltou por um segundo. Arregalou os olhos, passando de uma reserva a outra. Um frio congelante lhe percorreu a espinha. Não entendeu o porquê, mas a reserva estava dois dias adiantada. Se quisesse chegar a tempo, deveria sair naquele instante. A adrenalina fez seu corpo queimar e ele saltou da cama decidido. O sono desapareceu por completo. Correu até o computador, acessou o site das reservas, procurando por locais e datas freneticamente. Minutos de terror ao perceber que as reservas antes do deserto estavam dois dias adiantadas e as reservas "depois" estavam um dia atrasadas. O cronograma estava mais furado que seu calção de dormir.

- Um, dois, três, quatro... - contou, respirando fundo. De repente, como se estivesse possuído, seus dedos fizeram o computador saltar deu uma tela à outra, corrigindo datas, alterando hotéis e cancelando reservas erradas. Checou uma vez. Checou novamente. Fez uma tabela em um pedaço de papel, certificando-se pela terceira vez.

Alívio.

"Essa foi por pouco", pensou.

Relaxou o corpo, abençoando a ideia de transferir as reservas para o calendário do telefone.

"É isso, sem folga que hoje o dia vai ser longo", falou em voz alta. Levantou-se e foi tomar banho. Um dia inteiro de trabalho ainda lhe aguardava antes do deserto...

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Guia do Mochileiro das Américas...


Segundo o Guia do Mochileiro das Américas, os sul-americanos não chegam a ser malévolos, mas são mal-humorados, burocráticos, intrometidos e insensíveis. Seriam incapazes de levantar um dedo para salvar suas próprias avós da terrível Besta Voraz de Traal sem ordens através de um formulário em 3 vias para enviar, devolver, questionar, perder, encontrar, abrir um inquérito, perder novamente e, finalmente, deixar 3 meses sob um monte de turfa, para, depois, reciclar como papel para acender fogo.

Corroboro com as palavras do guia: se você, mochileiro de primeira viagem pretende viajar em um carro que não está em seu nome, ou ainda que esteja "alienado fiduciariamente" à uma financeira, prepare-se para uma peregrinação burocrática adicional. Eis o que é necessário para percorrer Chile, Argentina e Uruguai:

Carta Verde (que não é verde, parece mais um papel de pão) - Seguro de carro obrigatório para circular no Mercosul.Dizem por aí que mesmo que seu seguro já tenha tal cobertura, é necessário um certificado/comprovante indicando isso. Somente o cartão da seguradora ou o "manual do seguro" não são necessários. O problema é que algumas seguradoras são bem chatinhas e ficam te enrolando para entregar esse papel. A minha fez isso e acabei recorrendo a uma terceira para não me incomodar. Foi tranquilo e rápido. Entrei em contato com a corretora, pedi "orçamento para cara verde", mandei os dados que foram solicitados e já se resolveu tudo. Na média vão te cobrar 10, 11 reais por dia e a apólice já sai na hora, enviada por email (não precisa chegar o documento pelos correios). Claro que ela só é válida juntamente com o comprovante de pagamento, então nada de querer bancar o exxxperto e levar a apólice sem fazer o pagamento. Lembre-se que os vogons sudamericanos são tarados por burocracia e loucos para pegar um desprevenido.

Sabonetão - recém criado, o seguro SOAPEX é a "carta verde chilena". É necessário fazer a contratação desse rapaz caso você deseje ir por aquelas bandas.

Autorização para dirigir - no caso de o carro do mochileiro está no nome de um terceiro, ser emprestado, ou ainda está "alienado fiduciariamente", vulgo ser financiado, é preciso essa autorização. Não precisa ser procuração, nem papel timbrado, basta escrever no word ou, se estiver na dúvida, copiar da internet, igual a esse aqui que o google me apresentou (e que foi o que utilizei). Feito o documento, segue-se a parte mais chata dos preparativos: é necessário reconhecer a firma do proprietário do carro em cartório e após isso levar até um escritório do Ministério das Relações Exteriores mais próximo. Lá embaixo, nos links úteis, tem um atalho para o site do Itamaraty. Viu lá? Não? Pois olha... ... ... pronto? Então ta, agora continuemos

Reconhecendo o reconhecimento- Feito isso, leve a autorização até um escritório do MRE, vulgo "Itamaraty" para que ele seja validado. Vale informar que eles só fazem isso em documentos cuja firma foi reconhecida por cartórios do próprio estado (exceto se você for no de Brasília/DF). Se o selo for de outro estado, é necessário fazer o reconhecimento do reconhecimento de firma, também conhecido como "sinal público". Vá num cartório local e verifique se lá existe "sinal público" do cartório de origem. Infelizmente nem todo cartório vai ter esse "sinal". A dica é ir num lugar grande e central (por exemplo o 5º Tabelionato, aqui em Porto Alegre), que tem maiores chances de ter sinal de cartórios de outras capitais. Caso você não o encontre em nenhum lugar, então é preciso ligar para o cartório de origem e pedir que eles enviem o tal sinal público para o cartório que você pretende utilizar para "reconhecer o reconhecimento". Como a documentação toda é enviada pelos correios, demora pelo menos uma semana até que esteja tudo ok, então o ideal é se antecipar.
Para ficar bem entendido, depois de tanto bla bla bla:

Reconhecimento de Firma em cartório fora do Estado -> Sinal Público do Cartório de Origem para validação do Reconhecimento de Firma em Cartório dentro do Estado.
Só te liga que esse trololo só é necessário se a autorização foi reconhecida em cartório de estado DIFERENTE do estado em que está o escritório do MRE que você irá comparecer.

O Itamaraty é aqui - Resolvido esse engodo, vá com sua autorização reconhecida até um escritório do Ministério das Relações Exteriores. Lá eles vão olhar pra tua cara por dois segundos e vão carimbar o documento, que se torna "válido". Esse carimbo do MRE é suficiente para entrar na Argentina, devido a um acordo bilateral.

Mas eu quero é Vinho bom e Maconha - Hm. Então. Se o mochileiro é um cara sofisticado e apreciador de vinho chileno, ou se deseja ver os avanços sociais (e morais) que o simpático Pepe Larica, digo, Pepe Mujica está trazendo ao Uruguai (a propósito, esse cara - O cara, na verdade! - devia ter sido a personalidade do ano e não o Papa Francisco, mas divago) é preciso validar o carimbo do MRE no consulado mais próximo. Vá num consulado chileno e depois uruguaio (ou vice-versa) que lá eles validam a validação do reconhecimento do reconhecimento de firma da autorização. No consulado chileno em Porto Alegre, me cobraram R$ 31,00 (que devera ser depositado obrigatoriamente na boca do caixa no BB da Luciana de Abreu com 24 de Outubro) e entregaram o documento no dia seguinte. Se tu for lá na hora do almoço, tem um daqueles cafés que vende alaminuta a 12 pilas (frase decodificada somente para os viventes). É preço de Azenha com padrão Padre Chagas. Já sobre o consulado uruguaio não posso falar já que não vou pr´aquelas bandas dessa vez.


Invenção de boludo - Se o Mochileiro das Américas vai visitar os hermanos é necessário levar um cambão e dois (isso, dois! Um, dois) triângulos. Cambão, para quem não sabe, é um cabo rígido de reboque. É fácil achar no mercado livre e, em Porto Alegre, na Azenha tu consegue encontrar perto das duzentas Dilmas. Aproveita e já compra lá o segundo triangulo também. Outro item necessário é um kit de primeiros socorros, no estilo daqueles que pediram por aqui tempos atrás. Isso da pra achar na farmácia da esquina sem problema.

Invenção extra-oficial de boludo - Não está escrito em lugar nenhum, mas a Polícia Federal dos hermanos é craque em desculpas para pedir "regalos" aos mochileiros motoristas desavisados. Irão tentar te incriminar da morte de Cristo e de ser piloto do Enola Gay, de ter ligações com a Al Quaeda (opa, disparou um alarme na mesa do Garoto "Yes We Can"). Agora bizarro mesmo é que, além disso, te obrigam a ter "uma mortalha branca para cobrir lo muerto", caixas de fósforo e outras invenções com o único intuito de pedirem propina. Nessa horas é interessante conhecer a lei e falar que "irá entrar em contato com a embaixada brasileira". Seja assertivo e sempre cordial, mas deixando claro que não é trouxa e que não sera (facilmente) atochado. Ou, em último caso, vá preparado com cachaças baratas, CD´s de música brasileira e outras bobagens que possam substituir a propina que não te pedir. Por último respire fundo e deixe para liberar o "El Tano Pasman" que existe em você depois que entrar no carro, já longe das autoridades... (¡La puta que te parió!, ¡la puta que te parió!... No me puedo creer, la puta que te parió... ¡Sós un pelotudo! ¡Sós un hijo de puta!)

E se me pedem a PID? - Chile, Argentina e Uruguai são signatários de acordo de reciprocidade que diz não ser obrigatório a Permissão Internacional para Dirigir, porém cautela e mais um copo de uma boa cerveja de trigo nunca é demais. No Detran mais próximo você pode solicitar a PID e ela sai em cerca de 10 dias úteis. As taxas variam de estado para estado e não é preciso fazer qualquer prova ou teste de rua.


É isso, então, moçada. Informações adicionais podem ser encontradas nesse blog *especializado*. Ele serviu de base para meu planejamento.

Só não esqueçam de levaram toalhas. Nunca saia de casa sem sua toalha.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Um dia, quem sabe...

Está claro pra mim que os preparativos para a viagem não foram, nem de longe, um pé no saco. Até mesmo agora, com as malas já prontas, me recuso a me considerar a considerar a preparação "terminada". Estou sempre penso no que posso estar esquecendo, se algum documento não foi providenciado, ou alguma reserva não tenha sido confirmada. Melhor assim, tenho recordações ruins de quando relaxei demais e acabei esquecendo coisas óbvias.

O primeiro passo dessa viagem foi dado com uma boa antecedência: a decisão de viajar aconteceu ainda em outubro. Foram algumas semanas ponderando se iria mesmo fazer isso, sair de Porto Alegre dirigindo por quase 3mil km, até San Pedro do Atacama.
Ou talvez tenha sido quase um ano antes esse "primeiro passo". Quem sabe? San Pedro apareceu no meu radar pela primeira vez há muito mais tempo que três meses. O colega Gabriel Pontes, a quem conheci em um curso de cinema aqui em Poa (do crítico e diretor do portal Cinema em Cena, Pablo Villaça) visitou o Atacama, acredito que no ano passado e postou várias fotos. Imediatamente me interessei pelo lugar, já o colocando na lista dos que "um dia, quem sabe, irei visitar". Não sei a lista de vocês, mas a minha normalmente fica esquecida em algum lugar empoeirado do cérebro (porque escrita mesmo ela não existe). E lá ficou até uma conversa banal no trabalho.

A partir desse ponto o "destino" entrou em ação, me levando à inexorável decisão de ir até o Deserto:
desde que me mudei para Porto Alegre passo Natal e Reveillon em Fortaleza, com minha família. Quem viaja para cidades do Nordeste essa época do ano sabe que um pulmão ou um rim é o preço comum das passagens aéreas. Nos anos anteriores, por negligência, falta de planejamento, ou loucura mesmo, sempre falhei em me planejar e comprar os bilhetes com antecedência necessária, o que seria no mínimo três meses. Ano passado a experiência foi mais que trágica. Escapei por muito pouco de pagar 5mil reais em um vôo Poa-Fortaleza, mas a passagem ainda saiu por um preço alto. 
Decidido a fazer diferente em 2013, em outubro comecei a procurar passagens e, para minha surpresa, já estavam em preços impraticáveis. Passar o Natal aqui se tornou uma possibilidade real. Depressivamente real. Uma conversa à mesa do café, porém, ocorrida numa tarde de trabalho, me colocou no caminho do Paso de Jama: um amigo de serviço público comentou que iria até Ushuaia, capital da Província da Terra do Fogo em janeiro, também de carro. Naquele momento a tal lista "um dia, quem sabe, irei visitar", me deu um tapa na cara. "O Atacama é logo aí", dizia uma voz na minha cabeça, "por que não ir até lá no Natal? Aposto que será mais barato que as passagens para Fortaleza". Foi amor ao primeiro sussurro. Sem oposição, me deixei inebriar pela idéia e quando ficou claro que os custos seriam pelo menos os mesmos, se não maiores eu já não me importava com mais nada. As fotos do céu do Atacama me arrebataram de um jeito que durante muito tempo foi tudo que consegui pensar.

Esse arrebatamento veio, porém, em ótimo momento. A última vez que estive em Fortaleza foi em setembro, por 4 dias somente, e a idéia de passar o Natal em Porto Alegre não era das melhores. Ter um objetivo, qualquer que fosse, já seria suficiente para ocupar minha cabeça. Ter um objetivo desses, me levou para o outro lado da escala. Planejar a própria viagem é trabalhoso, mas com um pouco de pesquisa e ajuda, não é nenhuma tarefa impossível, apesar de cansativa às vezes. A recompensa, porém, é imediata: estando tudo em suas mãos, a viagem começa imediatamente. O primeiro passo "oficial" é dado (no meu caso, reservar o primeiro hotel) e você pensa "vai acontecer, é real". Se permitir sonhar nesses momentos é tudo que alguém precisa para acabar com qualquer cansaço ou contratempo. E dado o primeiro passo, você passa a exigir mais de si. "Não vim até aqui para desistir agora", diria a música dos Engenheiros do Hawaii.

Desistir? "Um dia, quem sabe", depois ou da próxima vez. Agora, não é mais uma opção.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Should I stay or should I go?

Dizia Bilbo Baggins em Sociedade do Anel, primeiro volume da saga O Senhor dos Anéis: "você pisa na estrada e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado".

Pois bem, senhor Bilbo, o meu "dito" é bem menos poético e muito mais bobo: "o Sandero é meu pastor e nenhuma estrada me vencerá". Com esse mote na cabeça, decidi, na virada do meu 31º aniversário, que já tinha experimentado por demais as mesmices da vida: reunindo toda a coragem, o máximo de recursos financeiros que pude alocar sem risco de ser despejado e, com ajuda de colegas de trabalho bem mais experientes em cair na estrada, planejei meu próprio presente para a manhã de natal: partir de Porto Alegre rumo ao Deserto do Atacama (Chile) para passar a noite de reveillon sob o céu mais limpo do mundo. Esse motivo sozinho já seria suficiente, mas uma pesquisa básica no google mostra que aquela região do Chile/Argentina é recheada de atrativos que justificariam 10 viagens.

Todos os preparativos estavam feitos para que eu zarpasse sozinho rumo à San Pedro de Atacama quando tive uma notícia tardia, mas mais que bem vinda: a companhia do meu - apesar de arquirrival político - amigo e colega de trabalho Marcos Kidricki. A primeira regra em qualquer viagem, penso eu, deve ser "segurança". Entenda os riscos antes, pondere e nunca jogue com a sorte. Pois bem, viajar sozinho, das Misiones argentinas à Salta, da Pumumarca ao Paso de Jama seria pouco menos que jogar dados com a estrada, esperando que tudo saísse o mais próximo possível do planejado. Um "copiloto" não só ajudará na navegação, nas tomadas de decisão e, sem hipocrisias, nas despesas :) , ajudará também em algo que, concluída a jornada, será de importância transcendental: o registro da viagem. E nesse caso, nada melhor que alguém que entende de fotografia. Tenho meus momentos, mas as letras de um teclado são bem mais confortáveis para mim que o clique de uma máquina fotográfica.

E enfim, depois de meses de burocracia, pesquisa de hotéis, rotas e lugares a visitar, hoje começo a arrumar as malas. O Sandero 1.0, NQS3176, saído de Fortaleza, que já cruzou o país de norte a sul, está se preparando para subir o altiplano chileno.

Chegamos ao "ponto sem retorno". Dormir será uma tarefa difícil nos próximos dias. Aguardemos então.