Segundo o Guia do Mochileiro das Américas, os sul-americanos não chegam a ser malévolos, mas são mal-humorados, burocráticos, intrometidos e insensíveis. Seriam incapazes de levantar um dedo para salvar suas próprias avós da terrível Besta Voraz de Traal sem ordens através de um formulário em 3 vias para enviar, devolver, questionar, perder, encontrar, abrir um inquérito, perder novamente e, finalmente, deixar 3 meses sob um monte de turfa, para, depois, reciclar como papel para acender fogo.
Corroboro com as palavras do guia: se você, mochileiro de primeira viagem pretende viajar em um carro que não está em seu nome, ou ainda que esteja "alienado fiduciariamente" à uma financeira, prepare-se para uma peregrinação burocrática adicional. Eis o que é necessário para percorrer Chile, Argentina e Uruguai:
Carta Verde (que não é verde, parece mais um papel de pão) - Seguro de carro obrigatório para circular no Mercosul.Dizem por aí que mesmo que seu seguro já tenha tal cobertura, é necessário um certificado/comprovante indicando isso. Somente o cartão da seguradora ou o "manual do seguro" não são necessários. O problema é que algumas seguradoras são bem chatinhas e ficam te enrolando para entregar esse papel. A minha fez isso e acabei recorrendo a uma terceira para não me incomodar. Foi tranquilo e rápido. Entrei em contato com a corretora, pedi "orçamento para cara verde", mandei os dados que foram solicitados e já se resolveu tudo. Na média vão te cobrar 10, 11 reais por dia e a apólice já sai na hora, enviada por email (não precisa chegar o documento pelos correios). Claro que ela só é válida juntamente com o comprovante de pagamento, então nada de querer bancar o exxxperto e levar a apólice sem fazer o pagamento. Lembre-se que os vogons sudamericanos são tarados por burocracia e loucos para pegar um desprevenido.
Sabonetão - recém criado, o seguro SOAPEX é a "carta verde chilena". É necessário fazer a contratação desse rapaz caso você deseje ir por aquelas bandas.
Autorização para dirigir - no caso de o carro do mochileiro está no nome de um terceiro, ser emprestado, ou ainda está "alienado fiduciariamente", vulgo ser financiado, é preciso essa autorização. Não precisa ser procuração, nem papel timbrado, basta escrever no word ou, se estiver na dúvida, copiar da internet, igual a esse
aqui que o google me apresentou (e que foi o que utilizei). Feito o documento, segue-se a parte mais chata dos preparativos: é necessário reconhecer a firma do proprietário do carro em cartório e após isso levar até um escritório do Ministério das Relações Exteriores mais próximo. Lá embaixo, nos links úteis, tem um atalho para o site do Itamaraty. Viu lá? Não? Pois olha... ... ... pronto? Então ta, agora continuemos
Reconhecendo o reconhecimento- Feito isso, leve a autorização até um escritório do MRE, vulgo "Itamaraty" para que ele seja validado. Vale informar que eles só fazem isso em documentos cuja firma foi reconhecida por cartórios do próprio estado (exceto se você for no de Brasília/DF). Se o selo for de outro estado, é necessário fazer o reconhecimento do reconhecimento de firma, também conhecido como "sinal público". Vá num cartório local e verifique se lá existe "sinal público" do cartório de origem. Infelizmente nem todo cartório vai ter esse "sinal". A dica é ir num lugar grande e central (por exemplo o 5º Tabelionato, aqui em Porto Alegre), que tem maiores chances de ter sinal de cartórios de outras capitais. Caso você não o encontre em nenhum lugar, então é preciso ligar para o cartório de origem e pedir que eles enviem o tal sinal público para o cartório que você pretende utilizar para "reconhecer o reconhecimento". Como a documentação toda é enviada pelos correios, demora pelo menos uma semana até que esteja tudo ok, então o ideal é se antecipar.
Para ficar bem entendido, depois de tanto bla bla bla:

Reconhecimento de Firma em cartório fora do Estado -> Sinal Público do Cartório de Origem para validação do Reconhecimento de Firma em Cartório dentro do Estado.
Só te liga que esse trololo só é necessário se a autorização foi reconhecida em cartório de estado DIFERENTE do estado em que está o escritório do MRE que você irá comparecer.
O Itamaraty é aqui - Resolvido esse engodo, vá com sua autorização reconhecida até um escritório do Ministério das Relações Exteriores. Lá eles vão olhar pra tua cara por dois segundos e vão carimbar o documento, que se torna "válido". Esse carimbo do MRE é suficiente para entrar na Argentina, devido a um acordo bilateral.
Mas eu quero é Vinho bom e Maconha - Hm. Então. Se o mochileiro é um cara sofisticado e apreciador de vinho chileno, ou se deseja ver os avanços sociais (e morais) que o simpático Pepe Larica, digo, Pepe Mujica está trazendo ao Uruguai (a propósito, esse cara - O cara, na verdade! - devia ter sido a personalidade do ano e não o Papa Francisco, mas divago) é preciso validar o carimbo do MRE no consulado mais próximo. Vá num consulado chileno e depois uruguaio (ou vice-versa) que lá eles validam a validação do reconhecimento do reconhecimento de firma da autorização. No consulado chileno em Porto Alegre, me cobraram R$ 31,00 (que devera ser depositado obrigatoriamente na boca do caixa no BB da Luciana de Abreu com 24 de Outubro) e entregaram o documento no dia seguinte. Se tu for lá na hora do almoço, tem um daqueles cafés que vende alaminuta a 12 pilas (frase decodificada somente para os viventes). É preço de Azenha com padrão Padre Chagas. Já sobre o consulado uruguaio não posso falar já que não vou pr´aquelas bandas dessa vez.
Invenção de boludo - Se o Mochileiro das Américas vai visitar os hermanos é necessário levar um cambão e dois (isso, dois! Um, dois) triângulos.
Cambão, para quem não sabe, é um cabo rígido de reboque. É fácil achar no mercado livre e, em Porto Alegre, na Azenha tu consegue encontrar perto das duzentas Dilmas. Aproveita e já compra lá o segundo triangulo também. Outro item necessário é um kit de primeiros socorros, no estilo daqueles que pediram por aqui tempos atrás. Isso da pra achar na farmácia da esquina sem problema.
Invenção extra-oficial de boludo - Não está escrito em lugar nenhum, mas a Polícia Federal dos hermanos é craque em desculpas para pedir "regalos" aos mochileiros motoristas desavisados. Irão tentar te incriminar da morte de Cristo e de ser piloto do Enola Gay, de ter ligações com a Al Quaeda (opa, disparou um alarme na mesa do Garoto "Yes We Can"). Agora bizarro mesmo é que, além disso, te obrigam a ter "uma mortalha branca para cobrir lo muerto", caixas de fósforo e outras invenções com o único intuito de pedirem propina. Nessa horas é interessante conhecer a lei e falar que "irá entrar em contato com a embaixada brasileira". Seja assertivo e sempre cordial, mas deixando claro que não é trouxa e que não sera (facilmente) atochado. Ou, em último caso, vá preparado com cachaças baratas, CD´s de música brasileira e outras bobagens que possam substituir a propina que não te pedir. Por último respire fundo e deixe para liberar o "El Tano Pasman" que existe em você depois que entrar no carro, já longe das autoridades...
(¡La puta que te parió!, ¡la puta que te parió!... No me puedo creer, la puta que te parió... ¡Sós un pelotudo! ¡Sós un hijo de puta!)E se me pedem a PID? - Chile, Argentina e Uruguai são signatários de
acordo de reciprocidade que diz não ser obrigatório a Permissão Internacional para Dirigir, porém cautela e mais um copo de uma boa cerveja de trigo nunca é demais. No Detran mais próximo você pode solicitar a PID e ela sai em cerca de 10 dias úteis. As taxas variam de estado para estado e não é preciso fazer qualquer prova ou teste de rua.
É isso, então, moçada. Informações adicionais podem ser encontradas nesse
blog *especializado*. Ele serviu de base para meu planejamento.
Só não esqueçam de levaram toalhas. Nunca saia de casa sem sua toalha.